
O que acontece quando um arquiteto e urbanista transforma o conhecimento produzido na universidade em linguagem acessível para discutir os problemas das cidades? Em Santa Catarina, uma das respostas é Drag Urbana, projeto artístico e de comunicação criado pelo arquiteto e pesquisador Leonhard Bravo Seyboth, 27 anos.
Natural de Santiago, no Rio Grande do Sul, e morador da região continental de Florianópolis, Leonhard é formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sua pesquisa investiga a expansão de grandes condomínios fechados no litoral catarinense e os processos de isolamento e segregação associados a esse modelo de ocupação urbana.
Foi a partir dessa trajetória que surgiu Drag Urbana, uma forma de comunicação que combina arte drag, arquitetura, ciência e debate público. A proposta é levar temas que normalmente ficam restritos à universidade, aos planos diretores e aos debates técnicos para as redes sociais e para o cotidiano da população.
“Quero aproximar o conhecimento científico das pessoas e mostrar que discutir cidade, meio ambiente e território também é discutir a vida cotidiana. A forma como uma cidade é planejada interfere em como as pessoas moram, circulam, trabalham, encontram cultura e ocupam os espaços públicos”, afirma Leonhard.
Das pesquisas acadêmicas aos problemas vividos nas cidades
A atuação de Drag Urbana ganhou espaço a partir do acompanhamento de debates relacionados ao território catarinense. Entre os episódios que marcaram esse percurso está a denúncia, nas redes sociais, de um emissário de esgoto da Casan na região das dunas da Lagoa da Conceição em Florianópolis/SC. O caso posteriormente esteve relacionado à realização de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
Desde então, Leonhard passou a acompanhar mais de perto discussões sobre mobilidade urbana, planos diretores, arborização, transporte coletivo, ocupação territorial, preservação ambiental e direitos sociais.
A cidade como território de disputa
Para Drag Urbana, discutir planejamento urbano significa discutir também desigualdade, acesso à moradia, mobilidade, preservação ambiental e direito à cidade. Entre as pautas defendidas por Leonhard estão políticas de adaptação das cidades à crise climática, fortalecimento das unidades de conservação e dos órgãos de fiscalização ambiental, preservação de dunas, lagoas e áreas de Mata Atlântica, políticas de moradia popular e enfrentamento da especulação imobiliária.
A mobilidade urbana também ocupa espaço central nesse debate. A proposta passa pela integração de diferentes modalidades de transporte e pela ampliação do acesso ao transporte coletivo, considerando as características territoriais de Santa Catarina, incluindo ônibus, barcos e futuras conexões ferroviárias.
“Quando falamos de mobilidade, não estamos falando apenas de transporte. Estamos falando de quem consegue chegar ao trabalho, à universidade, ao hospital, à cultura e ao lazer. A forma como uma cidade organiza seus deslocamentos também define oportunidades”, explica.
Arte como ferramenta de comunicação política
A estética de Drag Urbana nasceu justamente da tentativa de romper a distância entre a linguagem acadêmica e o público mais amplo. Cabelos coloridos, maquiagem, figurinos inspirados em elementos urbanos e ambientais e referências às paisagens catarinenses fazem parte da construção visual do projeto.
A drag também utiliza elementos ligados ao próprio território em seus figurinos, com referências a redes de pesca, tubulações de esgoto e ondas do mar. O projeto também aborda questões relacionadas à população LGBTQIA+, racismo, xenofobia, violência contra as mulheres, cultura e participação social.
“Arte também produz conhecimento. Quando você muda a forma de apresentar uma informação, consegue fazer com que pessoas que nunca se interessaram por um plano diretor, por exemplo, parem para entender como aquela decisão pode afetar a vida delas”, afirma Leonhard.
Ciência, meio ambiente e cultura no debate sobre o futuro de Santa Catarina
Entre os temas que vêm sendo apresentados por Drag Urbana estão ainda a proteção de terras indígenas e quilombolas, a preservação da Mata Atlântica, o fortalecimento da ciência e das universidades públicas, a descentralização dos investimentos culturais e a ampliação das políticas de cultura.
O projeto também chama atenção para os impactos territoriais de grandes empreendimentos e novas estruturas tecnológicas, como data centers, além do debate sobre recursos naturais estratégicos e soberania.
A perspectiva parte de uma compreensão de Santa Catarina como um território diverso, formado por diferentes comunidades, culturas e modos de vida. “Existe uma imagem de Santa Catarina que muitas vezes chega ao restante do Brasil como se o estado fosse homogêneo. Mas existe uma Santa Catarina muito mais diversa, com produção cultural, ciência, universidades, movimentos sociais e comunidades que defendem seus territórios. É essa diversidade que precisa aparecer também no debate público”, afirma.
Atualmente, além da atuação artística e de comunicação, Leonhard está envolvido no processo eleitoral de 2026 em Santa Catarina, levando para o debate institucional as pautas que já fazem parte de sua trajetória pública.
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